Observatório da Copa do Mundo FIFA 2014

O Observatório da Copa do Mundo FIFA 2014 é um canal de informações e de estudos sobre os acontecimentos e os impactos relacionados à Copa do Mundo FIFA 2014. Neste espaço realizaremos pesquisas e debates sobre: mercantilização e politização do futebol na era da globalização, as relações de poder e de exploração da FIFA no Brasil e no mundo, a criminalização aos Movimentos Sociais, a Lei da Copa e também sobre manifestações contra a Copa no Brasil. Este é um trabalho realizado pelo grupo de estudos e pesquisas GEOPOLÍTICA DO FUTEBOL ligado à Universidade Estadual de Goiás - UnU Goiânia - ESEFFEGO.
e-mail: observatoriodacopa2014@gmail.com

Você é a favor ou contra a realização da Copa no Brasil?

Pesquisar este blog

Arquivo do blog

Translate

sábado, 5 de julho de 2014

OBRA DA COPA DESABA EM BH: Superfaturamento da Obra e Correria para Finalizar - COPA PRA QUEM?

Obra da Copa desaba em Belo Horizonte: obra super faturada e sem qualidade

"O espetáculo, compreendido na sua totalidade, é simultaneamente o resultado e oprojeto do modo de produção existente. Ele não é um complemento ao mundo real, um adereço decorativo. É o coração da irrealidade da sociedade real. Sob todas as suas formas particulares de informação ou propaganda, publicidade ou consumo direto do entretenimento, o espetáculo constitui o modelo presente da vida socialmente dominante". (Guy Debord)

Os jornais de todo o Brasil lançam manchetes sobre a contusão sofrida por Neymar no jogo contra a Colômbia nesta última sexta-feira (04/07), porém, não há como esquecer a morte de mais dois trabalhadores  brasileiros com as obras da Copa "padrão FIFA". Na quinta feira (03/07) um viaduto em construção na região da Pampulha, em Belo Horizonte - MG, desabou em cima de pedestres, carros, caminhões e um ônibus municipal ferindo ao todo 22 pessoas e matando outras duas. Hanna Cristina dos Santos, de 24 anos (a motorista do ônibus) e Charles Frederico Moreira, de 25 anos, ambos trafegavam na avenida D. Pedro I de BH justamente na hora em que a coluna de sustentação do viaduto desintegrou-se. A obra pertencente ao Programa de Aceleração do Crescimento do Governo Federal (PAC)  e que faz parte das obras de mobilidade para a Copa do Mundo FIFA 2014 na capital mineira. Agora já somam no total 11 mortes de trabalhadores brasileiros nas obras da Copa, anteriormente 9 trabalhadores morreram nas construções dos estádios "Padrão FIFA" nas cidades sedes dos jogos. A forma aligeirada das construções de infra-estrutura para a COPA, os desvios de verbas, os superfaturamentos em obras públicas, a falta de fiscalização adequada e as constantes ameaças e pressões da própria FIFA sobre o governo para dar maior rapidez e celeridade na entrega da obras (na sua grande maioria, assim como o próprio viaduto de BH que desabou, estão atrasadas e não serão entregues até o final da Copa), tem provocado em todo o país construções sem qualidade e sem as mínimas condições de segurança, desrespeitando normas de segurança do trabalho e também códigos trabalhistas. Vale ressaltar que, segundo o jornal Correio Brasiliense de 05/07/2014, este viaduto que desmoronou era uma obra inicialmente pertencente ao consórcio das construtoras COWAN e DELTA, onde esta última foi obrigada a abandonar os serviços em 2012, devido ao envolvimento da mesma com os escândalos de corrupção envolvendo o contraventor Carlinhos Cachoeira e o governador de Goiás, Marconi Perillo. Segundo o mesmo jornal, no viaduto Guarrarapes que desabou, houveram no processo de sua construção vários problemas de superfaturamento, que ainda estão sendo investigados pelo Tribunal de Contas do Estado e pelo Ministério Público. Houve também sérios problemas com a desapropriação de residências de várias famílias que residiam na Av. Pedro I, onde hoje se encontra o viaduto, em virtude de pagamento de indenizações abaixo do valor venal dos imóveis. De quem é a culpa? Mais sangue está sendo derramado para a realização da "Copa das Copas", e para quem é essa Copa afinal? Pessoas como Hanna Cristina e Charles Frederico, mortos com a queda do viaduto, além de nunca poderem em vida assistir a um só jogo da Copa no Mineirão, ainda tiveram que pagar um preço maior ainda que o preço abusivo dos ingressos: o preço de suas próprias vidas. Os culpados são os Governos Federal, Estadual e Municipal, além das empreiteiras COWAN e DELTA, e também na mesa dos réus e assassinos  está com certeza a FIFA.
Segundo os laudos dos engenheiros e da própria Polícia Civil, que investiga o caso, o viaduto desabou devido à falta de resistência do concreto da coluna de sustentação do viaduto, que se desintegrou devido ao peso excessivo sobre a mesma (1.800 toneladas).
Segundo o Sr. José Antônio dos Santos, pai de Hanna Cristina, a motorista do ônibus que foi esmagada pela queda do viaduto, a culpa é do governo, que segundo ele, a "correria" e a pressa exagerada na construção e entrega das obras da Copa, foram a causa principal para a tragédia no viaduto dos Guararapes em Belo Horizonte.
O próximo jogo da seleção brasileira é justamente em Belo Horizonte (terça-feira 08/07), onde ela enfrenta a Alemanha pela semi-final no Estádio Mineirão. E é justamente na Av. D Pedro I, onde viaduto dos Guararapes desabou,  onde deveria paasar as comissões das duas seleções e todos os demais torcedores para a partida, pois esta avenida, agora interditada, era a principal via de acesso ao Estádio da capital mineira. Mas, com certeza o ônibus das seleções do Brasil e da Alemanha, deverão desviar desta rota pela av. Pedro I, pois não haverá tempo hábil para retirar todos os escombros,  e a imprensa e o governo devem tentar amenizar a tragédia com a escolha de outro caminho e com a fala incessante na mídia sobre a coluna vertebral do jogador Neymar.
 Entretanto, não há como esconder mais este  derramamento de sangue provocado pela "Copa das Copas", pois esta tragédia anunciada já é notícia nos principais jornais do mundo. Enquanto a imprensa tenta comover o país com a saída de Neymar da Copa, por causa de uma pequena luxação em um dos grupos musculares que sustentam a coluna vertebral do craque, dois trabalhadores brasileiros tiveram a coluna vertebral  e todo o restante do corpo esmagado pelo peso do concreto de um viaduto que desabou. Copa Pra Quem? Copa de Sangue! FORA FIFA!
OLé!
Copa Pra Quem?

segunda-feira, 30 de junho de 2014

QUEM DISSE QUE ACABOU? AS MANIFESTAÇÕES AINDA CONTINUAM NA COPA

Arte e Cultura Corporal em protesto contra a Copa do Mundo FIFA no Estádio Mané Garrincha (Brasília- DF)

"O espetáculo é ao mesmo tempo parte da sociedade, a própria sociedade e seu instrumento de unificação. Enquanto parte da sociedade, o espetáculo concentra todo o olhar e toda a consciência. Por ser algo separado, ele é o foco do olhar iludido e da falsa consciência; a unificação que realiza não é outra coisa senão a linguagem oficial da separação generalizada" 
(Guy Debord)


Não há como negar que as manifestações populares contra a Copa do Mundo de Futebol  no Brasil diminuíram bastante em comparação com o mesmo período do ano passado. Em meio a chamada Copa das Confederações, os movimentos populares de maio e junho de 2013 incendiaram as ruas com atos e manifestações. Naquele período o país se assemelhava a um vulcão (erroneamente conceituado de extinto) que entrou em erupção avassaladora, levando milhões de pessoas às ruas em todas as regiões do Brasil e colocando temor e terror nos políticos e na própria polícia, colocando também em xeque instituições tradicionais e sem credibilidade como os partidos e sindicatos.
Movimento Passe Livre na Copa em Brasília-DF
Vários fatores contribuíram para o amortecimento e o recuo das manifestações atualmente, pode-se destacar a criminalização, a violência e  a repressão do Estado Brasileiro,  que só aumentou a partir do ano passado pra cá, e mais ainda com a proximidade da realização da Copa. Tal amortecimento das mobilizações de rua foram provocadas essencialmente através da intensificação, por parte das polícias brasileiras, de  prisões  arbitrárias de centenas de manifestantes em várias cidades do Brasil, acusados injustamente e presos de forma ilegal pelo simples motivo de participarem de atos populares e manifestações de rua no Brasil.
Movimento Passe Livre em ato durante a Copa 2014
A contínua perseguição e a grande violência do  Estado brasileiro, com o intuito de garantir a ampliação e a reprodução do capital internacional (em nome do megaevento Copa do Mundo FIFA), através de prisões de manifestantes, também do envio de intimações ilegais às casas de integrantes de movimentos populares, e ainda o uso intensivo da mídia nacional  e internacional como instrumento de legitimidade da violência, da perseguição e do terrorismo de Estado, terminaram assim por ofuscar e ainda a desmobilizar a participação e adesão popular aos movimentos contra a Copa e contra a FIFA neste período de Copa no Brasil.
Entretanto, ninguém sabe ao certo quais seriam as consequências de uma eliminação precoce da seleção brasileira de futebol na Copa FIFA 2014, onde somos os anfitriões. Talvez possa acender novamente a fúria e a revolta dos brasileiros contra a exploração e os abusos do governo, pois, infelizmente, assim como em versões anteriores das Copas e também durante o regime militar no Brasil, a mídia nacional sempre usou a seleção brasileira de futebol como "anestésico" para esconder e ludibriar a população em relação aos reais problemas enfrentados pelo país, como o endividamento das famílias, a alta da inflação, problemas com saúde pública, educação e etc, que são ofuscados pelo discurso ideológico da "Copa das copas", "Legado da Copa", "O melhor anfitrião de todas as Copas" e também pelo nacionalismo exacerbado promovido pelas emissoras de TV. 
Entretanto, apesar da grande reação do governo contra as mobilizações populares durante o evento, muitos ainda estão saindo às ruas em plena época de Copa do Mundo, mesmo com Neymar, Hulk, Júlio César e C&A sendo expostos continuamente 24h na TV  e na internet brasileira.
Hoje em Brasília (30/06/2014), na rodoviária do Plano Piloto vários estudantes e jovens do movimento PASSE LIVRE foram protestar contra a péssima qualidade do transporte público na capital federal e exigir o fim das catracas em todo o Brasil.
Apesar de estarem em número reduzido, em comparação com o ano passado (2013), estavam com megafones, faixas e bradando em alta voz as mazelas deste governo que investe 30 bilhões de reais em Copa do Mundo, mas não investe nada em transporte público de qualidade.
No mesmo momento em que os integrantes realizavam o ato em plena rodoviária do Plano Piloto, era possível observar a multidão  que também utilizava os ônibus super lotados, caros e sucateados de Brasília. Enquanto isso, um grande frota de ônibus estava sendo  disponibilizada de forma "gratuita" a todos os torcedores que desejavam ir ao Estádio para acompanhar o jogo às 13h, entre França e Nigéria, pelas oitavas de final da Copa. A cerca de 1Km da rodoviária, em plena entrada do Estádio Mané Garrincha, antes do jogo começar entre França e Nigéria,  artistas locais realizavam uma encenação corporal, cujos movimentos explicitavam claramente uma crítica à realização da Copa do Mundo no Brasil. (ver fotos abaixo)









Com movimentos corporais descontínuos, surreais, fragmentados, lentos e tristes, e com objetos no chão que lembravam casas, mortes e pobreza, os coreógrafos expressavam nitidamente a morte de trabalhadores brasileiros nas construções dos estádios da Copa e também resgatavam a tragédia, o drama e o desespero das 250 mil famílias despejadas através das construções dos Estádios e pela especulação imobiliária produzida pela Copa. Quem disse que acabaram as manifestações? Elas continuam apesar do grande aparato militar de guerra do governo brasileiro contra as manifestações.
Torcedor Nigeriano em Brasília-DF

Mais uma vez veio a público as trapaças financeiras entre as federações e os atletas africanos. Agora é a vez da Nigéria, que dias antes do jogo de hoje (30/06) em Brasília, se recusou a treinar em virtude do não acerto do "bicho" (dinheiro) pela participação no Mundial de Futebol.
O escândalo veio a público pela não realização do treino em Campinas-SP, cidade onde está alojada a seleção nigeriana. A FIFA que vai ter o maior lucro da história em Copas (R$ 10 bilhões) e os jogadores de vários times africanos são submetidos ao vexame público por não receberem o valor combinado com suas federações nacionais de futebol. A FIFA, os patrocinadores e as Federações querem abocanhar todo o bolo sozinhos. Jogadores mercenários? A verdade é que países da África, juntamente com seus atletas sempre são desprezados e discriminados em grandes eventos como a Copa do Mundo FIFA de Futebol, pois as transações comerciais com transmissões de TV, publicidades e venda de produtos patrocinados pela FIFA em países do continente africano, não são muito atraentes ao capital FIFA, pois o mercado africano é pobre, comparado com o da Europa ou América do Norte. Na ética da FIFA o que interessa são apenas os lucros, "Fair Play" é somente no papel.
Voluntário da FIFA em Brasília 

O mais inacreditável de tudo no jogo entre França e Nigéria era o horário do jogo: 13h da tarde! Realmente desumano para os atletas jogarem neste horário e também para o público assistir aos jogos em plena arquibancada de baixo de um sol de mais de 30ºC e com umidade relativa do ar abaixo de 50% em Brasília. Mas como a lógica do capital é mesmo desumana, então para a FIFA o que vale mesmo é o dinheiro das transmissões de TV, onde os telespectadores da Europa, Ásia e América do Norte, levando em conta os fusos horários, poderão assistir aos seus jogos em casa num final de tarde ou início de noite, ajudando a aumentar o alto índice de audiência para as TV's locais, e ampliando ainda mais os lucros do patrocinadores da FIFA em todo o planeta. Esse caso é análogo aos horários do campeonato brasileiro de futebol, que precisam se adequar conforme as programações de novelas, filmes e o Big Brother da Rede Globo de Televisão.

Com a crise social na Nigéria e ameaças de terrorismo, era visível o maior efetivo de militares em volta do Estádio Mané Garrincha em comparação com jogos anteriores, principalmente com brigadas do exército e o exagero número de viaturas policiais.
Outro fato interessantíssimo é conversar com as pessoas que ficam do lado de fora do estádio durante as partidas da Copa, são garis, catadores de latinhas, estudantes, aposentados, voluntários, fotógrafos, torcedores locais e de outros países, que mesmo sem ingresso passam horas a fio escutando os gritos das torcidas de dentro do Estádio e que são amplificados pelo concreto e pela cobertura que funcionam como verdadeiras conchas acústicas.
Muitos destes são até mesmo contra a Copa no Brasil e também contra os gastos exorbitantes para a construção dos estádios, porém, estão ali bem pertinho daqueles monumentos, como se estivessem de frente às pirâmides do Egito, que parecem hipnotizar quem as observam. A diferença é que aquelas perduram a milhares de anos, enquanto nossos estádios tem o tempo contado, o tempo do capital onde "time is money".
Torcedores sem ingresso acompanham jogo do lado de fora do Estádio Mané Garrincha

Apesar da grande alegria dos torcedores antes do jogo, como sempre nesta Copa, ambos os países apresentaram um futebol  feio de se ver e buscando apenas o resultado. As duas seleções, e todas as demais que jogaram neste Estádio de Brasília, não honraram o nome daquele que batiza o nome do estádio, o grande Mané Garrincha. Atualmente o que se vê nesta Copa é apenas o futebol feio, futebol de resultados, onde o único "espetáculo" é mesmo o "futebol business", não o espetáculo sinônimo de arte, magia, firula ou dribles, mas o espetáculo sinônimo de imagem midiática, lucro, dólares e capitalismo selvagem.
Olé! 
Catador de latinhas em frente ao Estádio Mané Garrincha: custo do Estádio = R$ 1,7 bilhão

sexta-feira, 27 de junho de 2014

A COPA DO FETICHE E DO FEITIÇO: A MERCADORIZAÇÃO DO FUTEBOL

Mendigo pegando resto de comida em frente ao Estádio mais caro da Copa FIFA em Brasília: R$ 1,7 Bilhão 



"As imagens fluem desligadas de cada aspecto da vida e fundem-se num curso comum, de forma que a unidade da vida não pode ser mais restabelecida. A realidade considerada parcialmente reflete em sua própria unidade geral um pseudo mundo à parte, objeto de pura contemplação. A especialização das imagens do mundo acaba numa imagem autonomizada, onde o mentiroso mente a si próprio. O espetáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não-vivo." (Guy Debord)
Torcedor em frente ao Estádio Mané Garrincha em Brasília
No Estádio de Brasília, denominado pela FIFA nas transmissões de TV de "Estádio Nacional",  mas  conhecido e chamado pelos brasilienses de "Estádio Mané Garrincha", foi palco nesta quinta-feira (26/06) do jogo entre Portugal e Gana, valendo vaga para as oitavas de final. O jogo foi marcado pelas situações mais hilariantes do Mundial de Futebol até aqui (menos, é claro, do que mordida do atacante Suárez no rival italiano). Dias antes do jogo contra Portugal, os jogadores de Gana exigiram o pagamento adiantado pelo uso de suas  imagens na Copa, no valor de 3 milhões de dólares a serem divididos entre todos os jogadores. E segundo as exigências, o valor a ser pago devia ser somente em espécie e não em depósito eletrônico, pois segundo informou os jornais da cidade (Correio Brasiliense, p.03,  de 26/06/2014), muitos deles nem sequer possuíam contas bancárias, e, segundo relatam, é comum em Gana os pagamentos serem efetuados e aceitos na maioria das vezes somente em dinheiro. Um avião aterrissou na capital federal com o montante e foi distribuído aos jogadores ainda na véspera do jogo. Pelo fato de exigirem o valor somente em espécie, o acontecimento se tornou explícito e a matéria se tornou capa de vários jornais no Brasil no mundo. 
Tal episódio, em primeiro lugar,  mostra de forma escancarada o que de fato acontece nos bastidores de uma Copa do Mundo, ou seja, cartolas e presidentes de federações explorarem ao máximo as relações financeiras em relação aos seus subalternos, os jogadores. Talvez, se Federação de Futebol de Gana, não pagasse o valor de forma adiantada, os atletas nunca veriam sequer a cor do dinheiro após o fim da Copa. Em segundo lugar, mostra também a relação mercadológica que se tornou o futebol no mundo inteiro, e que é amplificado e explícito num evento de Copa do Mundo, onde o item que se torna menos importante e desprezível é de fato o próprio futebol, sendo o que realmente interessa é simplesmente o lucro e o retorno financeiro do espetáculo. Dentro desta lógica torcedores se transformam em clientes em potencial e os jogadores em importantes atores do futebol-businness. 
O futebol atual, em era de globalização, se transformou em uma das mercadorias mais caras e rentáveis da história da humanidade. As construções de mega arenas, os exagerados salários dos grandes craques, o alto valor dos ingressos, as milionárias transações sobre as transmissões do espetáculo-futebol, contrastam no país da Copa, com milhares de jogadores profissionais do campeonato brasileiro que ganham menos de um salário mínimo por mês (R$ 724,00), escolas sem quadras de esporte, praças de esportes abandonadas e sucateadas e ainda com professores de escolas públicas (incluindo também os professores de Educação Física) que ganham menos de R$ 1.500,00 por mês de salário no Brasil.
A imagem da seleção de Gana contando os dólares vista através da janela do hotel em Brasília e ainda o lance pífio de Cristiano Ronaldo, após o fim do jogo, se olhando continuamente e de forma narcisista para o telão do Estádio (grande "sacada" dos seus patrocinadores) revelam o fetiche da mercadoria denominada de futebol espetáculo, a transformação do esporte em show-midiático a ser consumido ao vivo por bilhões de espectadores-clientes em todo o mundo. O fetiche que faz do futebol não mais um jogo ou simples esporte, mas em uma espetacularização midiática global, com recursos tecnológicos de última geração capazes de transformar os estádios em verdadeiros "reality shows", os jogadores em mercenários e os dirigentes em verdadeiros vampiros e saqueadores.
Homens catam latinhas em frente ao Estádio mais caro do mundo: R$ 1,7 Bilhão

Os Feitiços lançados pelo grande chefe religioso de Gana, Nana Kwaku Bonsam, que ficou famoso ao publicar na internet a autoria da lesão no joelho de Cristiano Ronaldo através de suas magias e mandingas, não se igualam ao poder do "feitiço-fetiche" da mercadoria quando o assunto é o futebol espetáculo. O fetiche da mercadoria futebol enfeitiçou nações inteiras em nome da exploração e do lucro, sob o falso discurso de "legados", "visibilidade", "obras", "turismo" e "prestígio", enganam e destroem a vida de brasileiros que vivem à margem da sociedade, sem saúde, educação e sem lazer. Este tipo de feitiço não sacrifica apenas animais ou simples aves como aquele, no cerimonial fetichista do capital internacional, representado pela FIFA, o alvo de sacrifícios são na verade milhões de seres humanos, que perderam suas vidas nas obras de construções de estádios, com a remoção de milhares de famílias de suas casas em nome da especulação imobiliária promovida pela Copa e de estudantes criminalizados e presos em manifestações populares em todo o Brasil.
Torcedores ganeses sem ingressos em frente ao Estádio em Brasília

Ao se chegar no Estádio Mané Garrincha em Brasília para o confronto entre PORTUGAL X GANA, se viam centenas de torcedores do lado de fora do estádio, brasileiros, portugueses e ganeses. Muitos moradores das cidades satélites vão ao Estádio, mesmo sem possuirem o ingresso, apenas para contemplarem o movimento (feitiço) do loado de fora. O barulho amplificado no teto do estádio com os gritos das torcidas, permite até mesmo acompanhar o placar do jogo, mesmo sem ver nada do que acontece do lado de dentro.
Torcedores ganeses em Brasília
Garis, voluntários, vendedores ambulantes disfarçados com suas caixas dágua e de cerveja, bombeiros, estudantes, curiosos, catadores de latinhas e torcedores  que se misturam do lado de fora do estádio, debaixo das sombras dos coqueiros de macaúbas que circundam o estádio, num verdadeiro estado contemplativo e de êxtase, todos enfeitiçados e atônitos, mesmo do lado de fora, sem campo e sem bola, mas cercados por um número infinitamente maior de policiais do choque e da cavalaria, prontos para avançar e atacar sobre os excluídos da Copa.
A Copa é só para os ricos! Para os pobres: o Choque e a Cavalaria


quarta-feira, 25 de junho de 2014

A COPA DAS CONTRADIÇÕES: A Segregação "PADRÃO FIFA"

Torcedores chegam ao Estádio Mané Garrincha em Brasília para o jogo BRASIL X CAMARÕES (23/06/2014)
"Toda a vida em sociedade nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação" Guy Debord 

Durante o jogo pelo grupo A, entre as seleções de Brasil e Camarões, valendo  classificação do Brasil para as oitavas de final, em um final de tarde de segunda-feira, no dia 23 de junho de 2014, podia-se observar pelas ruas da capital brasileira, o grande movimento de torcedores pelas largas avenidas do Plano Piloto. Eram torcedores de todas as partes do Brasil e também muitos turistas estrangeiros que acompanhavam os jogos da Copa em Brasília. Um gigante de colunas paralelas em concreto armado, um verdadeiro elefante branco, mas que naquele momento antes do jogo se travestia em verde e amarelo, o famoso Estádio Mané Garrincha, cujo orçamento final superou a quantia de R$ 1,7 bilhão de reais. Considerado o estádio mais caro de todas as Copas do mundo, erguido em pleno Planalto Central, contrasta com a pobreza e a miséria do chamado entorno de Brasília, onde as cidades satélites enfrentam graves problemas sociais de saúde, educação, saneamento público e de transporte. O estádio de Brasília leva o nome do maior de todos os jogadores da história do futebol brasileiro, Mané Garrincha, que morreu doente e na miséria aos 39 anos de idade. Cerca de um mês antes  de seu falecimento, Garrincha atuou pela última vez como jogador profissional de futebol no dia 25 de dezembro de 1982 pelo time de futebol chamado de  Londrina, localizado na cidade de Planaltina-DF, que fica  próxima a Brasília.


Torcedores entram no ônibus na Rodoviária do Plano Piloto rumo ao Estádio

As cores verde  e amarelo contrastavam com a cidade cinza e branco dos concretos em curva de Niemeyer. As ruas largas e espaçosas estavam bloqueadas dentro da chamada zona de exclusão da FIFA. Barreiras físicas foram colocadas no perímetro do estádio, perfazendo um raio de cerca de 2 Km a partir da zona de acesso aos portões. Vendedores ambulantes, camelôs ou manifestantes eram proibidos de transporem a linha de fronteira da FIFA. Todos os espaços públicos em volta do estádio estavam totalmente privatizados, o acesso somente era permitido aos que possuíam ingressos em mãos ou as credenciais da entidade privada FIFA.
Zona de Exclusão FIFA no Plano Piloto em Brasília
Além das barreiras físicas, o número de policiais  e soldados (polícia militar, polícia federal, exército, agentes de trânsito, tropa de choque e cavalaria) era realmente gigantesco, similar a uma operação de guerra. Tudo era vistoriado, sacolas, mochilas e pertences dos torcedores ou pedestres que trafegassem pelo Plano Piloto, nada escapava da revista militar. Não era permitido o fluxo de veículos nesta zona de exclusão, exceto os ônibus que transportavam os torcedores ou veículos militares. O ponto de encontro de muitos torcedores, antes da entrada no estádio, era a zona de alimentação da Torre de TV, onde torcedores de várias partes do Brasil e do mundo se confraternizavam, com shows musicais e corografias de dançarinos brasileiros. 
Zona de Exclusão FIFA ao redor do Estádio Mané Garrincha
O número de policiais é maior do que o de torcedores neste espaço em volta do Estádio Mané Garrincha
O aparato militar era realmente exagerado e desproporcional para uma capital brasileira. Armamentos de última geração e tecnologia avançada, com o objetivo maior de conter os atos de rua  e para prender manifestantes. Em certos pontos em volta do estádio, o número de policiais fortemente armados e protegidos, era superior até mesmo ao número de torcedores. A maioria dos policiais usavam óculos com câmeras adaptadas que transmitiam as imagens em tempo real para a central de operações da polícia, instalada a cerca de 50 m do estádio.
Militarização e Repressão do Estado Brasileiro durante a Copa 
O número de policiais da cavalaria era também muito grande (ver foto acima). Vários helicópteros militares sobrevoavam o Mané Garrincha, e o efetivo militar no total era realmente gigantesco, fazendo lembrar desastroso golpe de 1964, onde militares fortemente armados tomaram as ruas da capital brasileira. 

Foram gastos pelo governo brasileiro cerca de R$ 3 bilhões de reais com infra-estrutura para as polícias, não somente para proteção de delegações ou chefes de estado presentes no mega evento FIFA, mas sobretudo em virtude das manifestações que eclodiram principalmente em maio e junho de 2013, coincidindo com a Copa da Confederações, que obrigou  o governo a priorizar ainda mais os gastos com equipamentos militares, no intuito de conter as manifestações populares.
Tecnologias e Militarização contra os Movimentos Sociais
Porém, este será um dos principais legados da Copa do Mundo FIFA 2014, ou seja, o aumento da repressão militar contra a população brasileira, já que a partir desta copa, teremos uma polícia mais bem armada e treinada para conter manifestações e atos populares. As mudanças na legislação, também em tramitação no Senado, só não foi aprovada ainda para este período de Copa, porque não houve tempo hábil entre os parlamentares de sancioná-la (burocracias do estado). Mas quem garante que tais mudanças nas leis penais não passem a vigorar depois da copa e para sempre? Uma delas, que ainda encontra-se no Senado, diz respeito a transformar as manifestações populares de rua em atentados terroristas, cabendo até 14 anos de prisão aos envolvidos. Na verdade, não é uma "lei de exceção" como muitos a denominam, mas é a própria regra de violência do Estado colocada a serviço da reprodução do  capital internacional e para a a repressão e criminalização dos movimentos sociais.
Zona de Exclusão e Militarização em torno do Estádio Mané Garrincha



O grande contraste foi visitar o denominado "FIFA FAN FEST" localizado na cidade de Taguatinga-DF, a cerca de 20 Km do Estádio Mané Garrincha. Enquanto se via aos arredores do Estádio a alta burguesia nacional e internacional, que chegavam a Brasília de avião e pagavam mais de R$ 1.000,00 por um ingresso, ali em Taguatinga se via justamente o contrário. 
Entrada do FIFA FAN FEST em Taguatinga-DF



O FIFA FAN FEST estava instalado em um antigo parque abandonado da cidade, de fácil acesso, porém sem nenhuma infra-estrutura, sem cobertura e ainda dentro de um terreno de terra vermelha batida. Observava-se claramente a segregação imposta pela FIFA durante a Copa (Segregação PADRÃO FIFA), onde a distância e a localização em relação ao Estádio, foram minuciosamente estudadas e planejadas pelos organizadores do evento. A distância entre os dois espaços, não permitiam o encontro entre as diferentes classes sociais (ricos e pobres)  durante o evento. Planaltina é uma cidade do entorno de Brasília e distante cerca de 20 Km da capital, e o público que frequenta esta espaço é totalmente diferente daquele que assiste aos jogos de dentro do Estádio "PADRÃO FIFA". 
Torcedores no FIFA FAN FEST em Tagautinga-DF

A população mais pobre e carente, apesar de estarem a 20 Km do Estádio da Copa, tinha apenas duas opções de assistirem a partida da seleção brasileira, ou ficavam assistindo em casa pela TV, ou se dirigiam até Taguatinga para o "FIFA FAN FEST". Nota-se assim a grande contradição e a segregação imposta pela organização de uma Copa do Mundo. São espetáculos para uma pequena elite branca poder participar e assistir de perto, e os moradores pobres da periferia ficam segregados e usufruindo da "Copa das Copas" à distância, mesmo apesar de ser na sua própria cidade. Foram gastos mais de 30 bilhões de reais com a Copa do Mundo 2014, considerada a Copa mais cara de todos os tempos, onde a maior parte destes investimentos originários de fundos públicos. E mesmo assim,  a maior parte da população assiste aos jogos da mesma forma que em copas anteriores, realizadas em outros continentes, ou seja, pela TV. 
FIFA FAN FEST  em Taguatinga-DF

FIFA FAN FEST  em Taguatinga-DF



O FIFA FAN FEST, além de ser colocado estrategicamente distante do Plano Piloto, onde está localizado o Estádio Mané Garrincha, também apresentou problemas para entrada dos torcedores, que se aglomeravam e se expremiam em filas quilométricas para se aproximarem dos telões que exibiam as imagens ao vivo do jogo. Mesmo que o grande Mané Garrincha, o maior de todos os jogadores brasileiros, ainda estivesse vivo, ele também seria excluído da festa da Copa FIFA em Brasília, ele não entraria no Estádio que leva o seu nome, pois seus últimos dias foram sem dinheiro e na pobreza. Talvez seria hoje um simples e humilde morador de Planaltina, Santa Maria ou Samambaia. E aqueles que no passado somente o extorquiram e o roubaram em nome do futebol, transformando seu futebol arte em mercadoria, ainda continuam até hoje a explorar e a alienar. Porém, agora exploram  a todo o seu povo, transformando a todos nós em Garrichas sem bola e sem sonhos, em nome do capital  insaciável da FIFA.
Olé! 
FIFA FAN FEST em Taguatinga-DF




quinta-feira, 12 de junho de 2014

NOTA DE REPÚDIO






Nota de Repúdio

Os professores do curso de Educação Física da UEG UnU – Goiânia ESEFFEGO, em reunião de colegiado, deliberaram expressar publicamente repúdio às ações de violência e de arbitrariedade realizadas pelo Governo do Estado de Goiás, através da Polícia Civil e também da Polícia Militar, dirigidas contra o estudante da UEG Marllos Souza Duarte na madrugada do dia 23 de maio de 2014. O mesmo teve sua residência arrombada, invadida e seus bens subtraídos por agentes encapuzados da polícia civil, que fortemente armados, agrediram e tentaram intimidar o estudante e ainda membros de sua família. Os bens e pertences do aluno, assim como também de seus familiares, tais como celulares, notebooks e mochilas, foram confiscados arbitrariamente pelos agentes da polícia civil, numa clara tentativa de criminalização. O estudante foi injustamente alvo destas ações da polícia, sem qualquer comprovação ou prova legal de sua participação em atividades ilegais ou criminosas. No entanto, a deflagração desta operação da polícia demonstra claramente a motivação explícita em intimidar e também criminalizar estudantes participantes de movimentos sociais na cidade de Goiânia. Além do estudante Marllos Souza Duarte da UEG, o aluno João Marcos (Senai) e ainda os alunos  Yan Caetano e Heitor Vilela, ambos da UFG, também sofreram as mesmas agressões e violações feitas pela polícia.
Sabemos que estas ações de criminalização aos integrantes de movimentos sociais, tais quais as realizadas através da chamada “Operação R$2,80” em Goiânia, não formam uma exceção, pois ocorreram também várias outras operações policiais simultâneas em todo o país, com prisões arbitrárias e envio de intimações às residências de manifestantes. Não de forma coincidente, durante os dias em que antecedem a realização da Copa do Mundo no Brasil, ocorrem essas ações de repressão e de criminalização realizadas pelo Estado, cujo objetivo principal é o de criminalizar e de intimidar participantes e integrantes de movimentos sociais, que lutam por melhorias no transporte público, pelo direito à moradia digna, pela saúde pública e também por uma educação de qualidade.
Neste momento atual de insurgência das ruas, evidenciado principalmente através das manifestações dos meses de maio e junho de 2013, através da ação direta em forma de movimentos sociais, e da luta popular organizada, urge incentivar, preservar e respeitar o direito de manifestação, de liberdade de pensamento e de expressão, que são elementos fundamentais e inelimináveis de uma sociedade verdadeiramente democrática. As ações espontâneas, corajosas e libertárias destes estudantes citados, servem de exemplo à toda atual geração de brasileiros submetidos à opressão e exploração manifestas pelo capitalismo selvagem e globalizado em vigor. As mudanças almejadas por todos nós e as transformações relevantes dentro da injusta e desigual realidade brasileira, somente se efetivarão através da luta e do poder popular nas ruas.
Abaixo a repressão do Estado!

Goiânia, 09 de junho de 2014